Review geral 2009 – parte 1

Uma pincelada em alguns discos bacanas lançados em 2009, uns mal saíram do forno, outros já fazendo este post correr o risco de parecer requentado.

Pigface – “6”

A turnê do Ministry realizada entre 1989 e 90 para promover o álbum “The Mind Is A Terrible Thing To Taste” marcou época ao reunir a elite do rock industrial de então num freakshow inovador, que tinha como bandas de abertura gente como Skatenigs, Revolting Cocks e KMFDM, além de participações de membros de diversas outros grupos (até Jello Biafra deu o ar de sua graça bizarra e inoclasta por ali). Para quem já assistiu àquele VHS histórico do Ministry que registrou parte daquilo, deve se lembrar dos bateristas Martin Atkins e Bill Rieflin socando kits acústicos e eletrônicos ao vivo num duelo que elevava ainda mais a potência sonora da banda. Pois o Pigface surgiu dali, quando Atkins (que fez história ao lado de Jah Whobble e John Lydon no PIL ) sentiu que aquela química com o seu colega baterista poderia render uma banda à parte, e incluir o maior número de participações já visto do povo do industrial e também de muitos outros estilos (até gente do Pixies e do Tool passou por ali – a lista  é quilométrica). Vinte anos depois, o Pigface seguiu  – já sem Rieflin como membro fixo – sendo referência na música industrial. Curiosamente, entre toneladas de discos ao vivo, remixes e EPs, o Pigface vai completando duas décadas de vida apenas com o sexto disco de estúdio, oficialmente falando. “6”, apesar do nome óbvio, segue muitíssimo bem a trajetória do supergrupo mantendo o pique após o excelente “Easy Listening” (2003).

 

Aqui temos uma banda de rock industrial amadurecida, que não se apóia exclusivamente na surrada fórmula de guitarras pesadonas e ruídos mecânicos em profusão. Os vocais não investem somente na gritaria distorcida, as programações são excelentes e o groove da bateria de Atkins é marca registrada por todo o disco. “6” abre com o ritmo quebrado de “Electric Knives Club” e os vocal inconfundível de Chris Connely (sempre tenho a impressão de que ele rende mais em discos de terceiros do que em seu material solo) sendo acompanhado por uma guitarra suja e um synth que cola nos ouvidos. A faixa seguinte, “6.6.7.11”, e também “I Hate You In Real Life Too” e “K.M.F.P.F” são as que mais se aproximam do clichê do rock industrial, sendo que a última certamente faz referência ao KMFDM (Ens Esch, ex-membro desta banda, participa da música). Hanin Elias, ex-integrante do ultra-mega-barulhento Atari Teenage Riot, participa mais uma vez de um disco do Pigface com as ótimas “Fight The Power” e “Sanctify”, surpreendentemente levadas em ritmo rap/hip-hop, obviamente que abastecidas das engrenagens mecânicas do industrial. “Mercenary” é o ponto alto deste ótimo álbum, pois se trata de um rock industrial perfeito, daqueles de fazer parte de set lists ao lado de clássicos de NIN, Ministry ou Young Gods. O restante do disco equilibra muito bem o experimentalismo com sonoridades mais acessíveis, tornando este lançamento do Pigface uma das gratas audições de 2009.

 

 Download – “6″:

 

My space – Pigface

 

My Life With The Thrill Kill Kult – “Death Threat”

 kill kult 2009

A banda mais divertida do som industrial (ao lado do Revolting Cocks, é claro) está de volta com mais um disco excelente. “Death Threat” é mais sujo e pesado que o anterior (e também muito bom) “The Filthiest Show In Town”, mas mantém aquela onda meio noir, meio trilha de filme de terror B dos anos 50 que lhes é bem característica e que depois viria a fazer a fama de gente como Rob Zombie (com muito mais peso, obviamente). É fácil apontar os destaques num disco tão bacana como este. A abertura com o groove sombrio e pesado de “WitchPunkRockStar” é o cartão de visitas perfeito, assim como a faixa que encerra o disco, “Psychik Yoga” – as duas mais dançantes e aceleradas que o usual . Quando ouço “Invasion (Of The Ultramodelz)” sempre me vem à mente que esta música seria perfeita para a cena do strip de Rose McGowan em “Planet Terror”, só que imagino também os zumbis do filme entrando ali naquele momento para dilacerar a perna dela precocemente, rsrsrsrsrsrs…

O balanço sacana e sensual de “Spotlite Hooker” lhe transporta para um puteiro sujo recheado de vagabundos jogando garrafas numa banda qualquer que estivesse tocando atrás de uma grade. Nesta faixa, ouvimos sem cerimônias o som de um hammond e daquele mellotron (um tipo de sintetizador) típico da black music dos anos 60/70. “Who R U Now” tem as guitarras digitalizadas, os vocais sussurrados e os metais canastrões que fizeram de “Sexplosion” um clássico cultuado até hoje e que ainda serve de base para tudo o que o Kill Kult viria a produzir a partir de então. No geral, musicalmente falando, “Death Threat” soa como se um bando de malucos do groove tipo o Funkadelic  resolvesse fazer uma jam com um povo cyberpunk pervertido e fã de filmes de terror de baixo orçamento provindos de Chicago (a cidade de origem desta gangue bizarra e terra de boa parte do melhor que se produziu no som industrial até hoje via Wax Trax Records). A mistura pode soar um tanto quanto improvável para muitos, mas vem dando certo há mais de 20 anos e garante a diversão de qualquer noitada mal intencionada.

 Download – “Death Threat”:

 

 Site oficial

My space – My Life With The Thrill Kill Kult

Anders Manga – “Catastrophe”

 

Este norte-americano que lidera a banda que leva o seu próprio nome é uma grata surpresa no cenário da música gótica/industrial mundial dos anos recentes. Lançando ótimos discos anualmente a partir de 2005, o som de Anders Manga pode ser definido simplesmente como “electro-goth”. Porém, em meio à avalanche de seres trevosos que investem neste segmento atualmente, o Sr. Anders se destaca compondo canções e discos acima da média, valendo-se de um registro mais cool num gênero tão acostumado a exageros estéticos e sonoros. No som, podemos encontrar influências de EBM old school, electro atual e o goth rock tradicional. A parte eletrônica não é necessariamente aquela EBM de tinturas góticas já manjadas de gente como Cruxshadows. E mesmo a porção goth rock tradicional + electro pouco lembra ícones desta fusão como Bella Morte, até porque não há guitarras no som do Anders. Seu registro vocal situa-se num meio termo entre Marilyn Manson (a parte grave e sem os gritos) e Ville Valo (HIM) e sua estética visual está mais próxima da indumentária gótica dos anos 80, tipo Sisters of Mercy e Bauhaus. E o cara produz e distribui tudo de casa de forma independente, inclusive os clipes, além de ter em seu currículo filmes de terror underground.

 

Uma única queixa que eu tinha acerca do som do Anders Manga era de que seus discos soavam bastante próximos entre si – um típico caso de uso e abuso de uma fórmula que deu certo, apesar da altíssima qualidade de todos os álbuns. Porém, o recém-lançado EP (somente em formato digital) “Catastrophe” mudou esta concepção. O som está, digamos, mais ROCK! Se o que diferenciava a música do Anders Manga do usual era justamente o uso da eletrônica sem instrumentos “comuns” para compor seu goth rock  – uma contradição, diga-se, neste EP o som se aproxima de algo muito mais tradicional, com baixo, guitarras e bateria (ainda é programada, mas com um som mais “humano”) tendo como referência até mesmo gente como Nick Cave, Danzig e Paradise Lost (fase “One Second”), como podemos conferir em “Infinite Gaze to the Sun”, “Lead”, “The Last Alarm” e “Murder In The Convent”. “The Transit Begins” particularmente remete ao death rock clássico, enquanto que as demais faixas soam como o próprio som típico do Anders acrescido de peso mais “humano”. “Catastrophe” é, seguramente, um dos melhores registros da música gótica recente, e um disco “inteiro” deve sair ainda neste ano, segundo informações do próprio site oficial da banda. Espero que mantenham esta linha evolutiva no seu som.

Download – “Catastrophe”:

My space – Anders Manga

 
Em breve tem mais sons novos aqui…

~ por kalunga76 em 11/09/2009.

2 Respostas to “Review geral 2009 – parte 1”

  1. o jeito é baixar! ainda não ouvi nenhum dos 3 e devo admitir q não conheço nada do Pigface (vacilo q será concertado) nem do Manga!

  2. Bonna, de repente você começa ouvindo o Pigface de trás para a frente, baixa depois o “Easy Listening” (http://rapidshare.com/files/50818964/Pigface_-_Easy_Listening_For_Difficult_Fuckheads__2003_.rar) e por aí vai. O Kill Kult é diversão na certa, e o Anders Manga, na minha opinião, é uma das melhores bandas góticas da atualidade – ainda mais com guitarras no som agora – sem aquela frescurada espalhafatosa que anda tomando conta do gênero nesta década. Aí vai todo o resto da discografia do Anders, caso realmente se interesse pela banda:

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